• Os desafios dos estudantes surdos perante o ensino remoto na UFCA

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14 de maio de 2021 por 

Por Geneuza Muniz


A pandemia do novo corona virus COVID-19 acarretou uma série de mudanças, e uma delas foi a migração da sala de aula física para o computador, com o objetivo de conter a propagação do vírus. Essa alternativa, porém, não é viável para muitos estudantes, mas se faz necessário entender como a comunidade surda tem lidado com esse momento. 

Em conversa conosco, o professor e coordenador do curso de Libras da UFCA, Mardonio Oliveira,  nos relatou que atualmente existem oito estudantes surdos – porém dois fizeram trancamento de matrícula – e sete intérpretes, dos quais quatro são servidores e três são contratados. Ainda conforme o coordenador do curso, existem muitas dificuldades pertinentes ao estudante surdo: “o intérprete está presente apenas durante a aula síncrona, e os estudantes surdos muitas vezes não têm ninguém em casa que fale seu idioma, que é a linguagem de sinais”.  

O professor Mardônio ainda disse acreditar que “seria um EAD onde os estudantes teriam um material para estudar em casa, mas a UFCA incluiu plataformas para ensino síncrono e isso não era favorável, pois nem todos os estudantes têm uma conexão boa, então discutiu-se bastante sobre a plataforma ideal para esse ensino”. E continua: “nós, como surdos, preferimos as aulas assíncronas, porque não atrapalha tanto; quando as aulas são síncronas é muito mais dificultoso, pois temos que ter um planejamento que às vezes não tem como. Algo que foi bem prejudicial foi usar a plataforma meet, pois ela trava bastante”.  

Um dos problemas apresentados pela plataforma meet é a visualização das telas: “eu fico preocupado com esses alunos surdos, pois eles precisam ter uma visualidade, são diferentes dos alunos ouvintes. Pensamos em como proporcionar essa visualidade para o aluno surdo, por isso pensamos na plataforma zoom”. 

O professor ainda comenta que a comunidade surda se vê afetada em muitos momentos para compreender o que está acontecendo, pois nem todo surdo domina a língua portuguesa e os programas de Tvs e noticiários não possuem intérpretes. Muitas vezes tem a legenda, mas isso é algo que não facilita.

A respeito dos intérpretes dentro da universidade, o professor Mardônio ressalta que no curso de Letras-Libras existe um cronograma de aulas e intérpretes disponíveis naqueles horários. “Nós sabemos em quais disciplinas terão alunos surdos e a secretaria de acessibilidade faz a organização dos intérpretes para cada disciplina”. E continua: “sobre  as atividades que o aluno recebe, ele mesmo faz um chamado abrindo um ticket e ele mesmo solicita à secretaria de acessibilidade um intérprete.

Para outra professora do curso de Letras-Libras, Ana Carmita, o maior desafio durante essa pandemia tem sido a relação física entre professor- aluno. “O contato que é físico, do olhar para o aluno, nos facilita muito enquanto professor, ver o semblante, você acompanha mais de perto o processo de aprendizagem e os processos individuais de cada estudante.” A professora relata o quanto é complexo para ela ministrar aulas remotas para os alunos surdos. “Pra mim é muito mais complexo, eu acredito até que seja mais complexo para mim enquanto professora deles do que para eles enquanto meus alunos, porque o surdo é visual, e eles estão a frente de muitos ouvintes no quesito tecnologia, eles já usam as tecnologias a seu favor com muita frequência”. A aula é oralizada, e o estudante surdo precisa estar vendo o intérprete, então isso pode ser comprometido a qualquer momento dependendo da internet e isso é o mais preocupante para a professora e é na sua visão um desafio a ser superado.

Estudante do terceiro semestre do curso de Letras-Libras,  José George Macêdo que também é surdo, diz que sua maior dificuldade é em relação às plataformas utilizadas: “é muito difícil para nós surdos esse ambiente do meet porque trava muito”.  Outra dificuldade é em relação às notícias sobre a pandemia mesmo, que não chegam na íntegra para os surdos. George relata que cada experiência é singular. “No meu caso, eu sou fluente no português, mas outros surdos podem ter maiores barreiras; eu consigo acompanhar a TV”, declara.   

Acessibilidade

 A acessibilidade, embora seja algo tratado com muito boa vontade dentro da universidade, ainda é um desafio no nosso país. Esse ponto foi apontado por ambos os entrevistados, falta uma universalidade  do sistema bilíngue, que desde 2012 se tornou  a segunda língua oficial do país por meio da lei 10.436, a partir do reconhecimento legal da Língua Brasileira de Sinais, mais conhecida como LIBRAS. 

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